Lembranças

 

Rosarinha Brandão

ADENDO

 MEUS DOIS AMORES

 

            Entre as muitas bênçãos com que Deus me cumulou uma há muito especial: eu tenho dois amores.

            Dois amores bem diferentes: às vezes, opostos até.

            Um é moreno, “bem Brasil”. Outro claro, quase alourado.

            Um é Engenheiro em Eletrônica, outro Administrador de Empresa Rural.

            Um, dedicado ao trabalho, antes de se formar, já era estagiário na empresa onde está até hoje e ocupa cargo de gerência. O outro, sempre em busca de novas experiências, já teve “n” empregos e hoje não tem nenhum: está missionário evangélico.

            Um é católico fervoroso, consciente de suas responsabilidades para com Deus e sua Igreja. Outro é protestante, entusiasmado, preocupado em servir a Deus e salvar a família, os amigos, e a humanidade toda.

            Um é formiga, outro cigarra.

            Com um, eu desperto, ainda madrugada porque ele está se movimentando ao sair para o trabalho, ao outro tenho que pedir, tarde da noite, que pare de tocar seu violão e cantar para que eu possa dormir.

            Um quer fazer seu “pé-de-meia” enquanto é primavera e só pretende descansar quando o outono/inverno chegar. Outro distribui com a mão esquerda tudo que a direita alcança, porque prefere ver  “as aves do céu e as flores do campo” e ter certeza que do inverno, Deus cuidará.

            Um gosta de ouvir, só fala o essencial. O outro é falante, gosta de estar sempre conversando, fazendo piadas, provocando a gente.

            Um, à hora das refeições, não reclama mas também não elogia, mesmo iguaria especial, feita com o objetivo explícito de agradar-lhe. O Outro está sempre louvando a comida, mesmo a mais simples e rotineira.

            Um é prático, objetivo: se lhe apresento um problema pela manhã, à tarde já tenho a solução. O outro, sonhador, acalanta meu coração com promessas e quase nunca “faz hoje o que pode deixar para amanhã.”

            De um, para conseguir um rápido abraço, um mísero beijinho, tenho que pedir, quase suplicar; o outro quer estar sempre de mãos dadas, me abraçando, beijando, trocando cafuné.

            Com um eu não discuto nem brigo porque ele tem sempre gestos e ações sob medida, palavras certas e precisas para me manter tranqüila e razoavelmente informada sobre fatos de sua vida. Com o outro vivo “aos tapas e beijos”, entre juras de amor, pedidos de desculpas e trocas de franquezas rudes, cobranças e exigências quase nunca satisfeitas por qualquer das partes.

            Um é lago misterioso sobre o qual eu me debruço, aperto os olhos, ávida por entender as profundezas; o outro é rio correndo, revelando pedras, espumas, cachoeiras e calmarias.

            Tão diversos os meus dois amores!...

Mas não êxito como os franceses “entre deux mon coeur balance” mas afirmo mineiramente convicta: com os dois, meu coração se equilibra.

            Sou equânime e terrivelmente apaixonada pelos dois.

            Um se chama Paulo, o outro Rogério.

            Os dois são meus  filhos.

Rosarinha Brandão